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quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Texto da semana...No Fundo Somos Bons Mas Abusam de Nós...

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O comum das gentes (de Portugal) que eu não chamo povo porque o nome foi estragado, o seu fundo comum é bom. Mas é exactamente porque é bom, que abusam dele. Os próprios vícios vêm da sua ingenuidade, que é onde a bondade também mergulha. Só que precisa sempre de lhe dizerem onde aplicá-la. Nós somos por instinto, com intermitências de consciência, com uma generosidade e delicadeza incontroláveis até ao ridículo, astutos, comunicáveis até ao dislate, corajosos até à temeridade, orgulhosos até à petulância, humildes até à subserviência e ao complexo de inferioridade. As nossas virtudes têm assim o seu lado negativo, ou seja, o seu vício. É o que normalmente se explora para o pitoresco, o ruralismo edificante, o sorriso superior. Toda a nossa literatura popular é disso que vive. 
Mas, no fim de contas, que é que significa cultivarmos a nossa singularidade no limiar de uma «civilização planetária»? Que significa o regionalismo em face da rádio e da TV? O rasoiro que nivela a província é o que igualiza as nações. A anulação do indivíduo de facto é o nosso imediato horizonte. Estruturalismo, linguística, freudismo, comunismo, tecnocracia são faces da mesma realidade. Como no Egipto, na Grécia, na Idade Média, o indivíduo submerge-se no colectivo. A diferença é que esse colectivo é hoje o puro vazio. 

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 2' 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019


Texto a semana...Quando Está Frio no Tempo do Frio..

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Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, 
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 
O natural é o agradável só por ser natural. 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, 
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno — 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita, 
E encontra uma alegria no fato de aceitar — 
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável. 

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece 
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida? 
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço, 
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime, 
Da mesma inevitável exterioridade a mim, 
Que o calor da terra no alto do Verão 
E o frio da terra no cimo do Inverno. 

Aceito por personalidade. 
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos, 
Mas nunca ao erro de querer compreender demais, 
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência, 
Nunca ao defeito de exigir do Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo. 

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos" 
Heterónimo de Fernando Pessoa 

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Vamos cantar as janeiras...




Vamos cantar as janeiras
Vamos cantar as janeiras
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras.....

Texto da semana...Fernando Pessoa..Livro do Desassossego..


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A vida é para nós o que concebemos dela. Para o rústico cujo campo lhe é tudo, esse campo é um império. Para o César cujo império lhe ainda é pouco, esse império é um campo. O pobre possui um império; o grande possui um campo. Na verdade, não possuímos mais que as nossas próprias sensações; nelas, pois, que não no que elas vêem, temos que fundamentar a realidade da nossa vida.


Fernando Pessoa

Livro do Desassossego

Texto da semana....

 
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É tão fácil comparar a vida a uma viagem. Faz tanto sentido. Viagem ou vida, chegamos sempre aqui. Como se estivéssemos no alto de uma montanha, podemos olhar em volta. Aqui é o lugar onde tudo acontece. Há serenidade nesta certeza. Tens o dever livre de aproveitá-la. Se estás a ler estas palavras é porque estás vivo.

Dentro do Segredo

José Luís Peixoto