terça-feira, 2 de dezembro de 2014
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Autores portugueses - Vergílio Ferreira - Um Mundo de Vidas....Nós vivemos da nossa vida um fragmento tão breve...
Nós vivemos da nossa vida um fragmento tão breve. Não é da vida
geral - é da nossa. É em primeiro lugar a restrita porção do que em cada
elemento haveria para viver. Porque em cada um desses elementos há a
intensidade com o que poderíamos viver, a profundeza, as ramificações. Nós
vivemos à superfície de tudo na parte deslizante, a que é facilidade e fuga. O
resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distracção. Mas
há sobretudo a zona incomensurável dos possíveis que não poderemos viver.
Porque em cada instante, a cada opção que fazemos, a cada opção que faz o
destino por nós, correspondem as inumeráveis opções que nada para nós poderá
fazer. Um golpe de sorte ou de azar, o acaso de um encontro, de um lance, de
uma falência ou benefício fazem-nos eliminar toda uma rede de caminhos para se
percorrer um só. Em cada momento há inúmeros possíveis, favoráveis ou
desfavoráveis, diante de nós. Mas é um só o que se escolheu ou nos calhou.
Assim durante a vida vão-nos ficando para trás mil soluções
que se abandonaram e não poderão jamais fazer parte da nossa vida. Regresso à
minha infância e entonteço com as milhentas possibilidades que se me puseram de
parte. Regresso à juventude, à idade adulta, ao simples dia de ontem e a
infinidade de soluções que não adoptei dava para um mundo de vidas. Foi uma só.
Nela realizei, num único percurso, aquilo que constituiu o todo de uma vida
humana. E todavia, nessa estreiteza de ser está o infinito de mim. Deus é a
simplicidade absoluta e tem o máximo de ser. Nós conhecemos em nós esse máximo
e é por isso que ao Deus o soubemos inventar.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Poema da semana....Tédio....Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" ..
Tenho as recordações d'um velho milenário!
Um grande contador, um prodigioso armário,
Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais,
Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,
Mais segredos não tem do que eu na mente abrigo.
Meu cer'bro faz lembrar descomunal jazigo;
Nem a vala comum encerra tanto morto!
Eu sou um cemitério estranho, sem conforto,
Onde vermes aos mil — remorsos doloridos,
Atacam de pref'rência os meus mortos queridos.
Eu sou um toucador, com rosas desbotadas,
Onde jazem no chão as modas despresadas,
E onde, sós, tristemente, os quadros de Boucher
Fuem o doce olor d'um frasco de Gellé.
Nada pode igualar os dias tormentosos
Em que, sob a pressão de invernos rigorosos,
O Tédio, fruto inf'liz da incuriosidade,
Alcança as proporções da Imortalidade.
— Desde hoje, não és mais, ó matéria vivente,
Do que granito envolto em terror inconsciente.
A emergir d'um Saarah movediço, brumoso!
Velha esfinge que dorme um sono misterioso,
Esquecida, ignorada, e cuja face fria
Só brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia!
Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
ONDA PINA - A POESIA em MOVIMENTO
ONDA PINA - A POESIA em MOVIMENTO NA BIBLIOTECA DO AEGONDIFELOS on PhotoPeach
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