quinta-feira, 16 de abril de 2015

Poesia da semana...Nunca Conheci quem Tivesse Levado Porrada....











Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo, 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, 
Para fora da possiblidade do soco; 
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo, 
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho, 
Nunca foi senão princípe - todos eles princípes - na vida... 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana, 
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Quem contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 
Ó princípes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde há gente no mundo? 

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 


Álvaro de Campos

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Concurso Nacional de Leitura 2014/15 - 2ª fase Distrital - Braga






        O Concurso Nacional de Leitura, na sua 9.ª edição, é uma iniciativa do Plano Nacional de Leitura, em parceria com a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB), a Rede das Bibliotecas Escolares (RBE), o Instituto Camões - Instituto da Cooperação e da Língua e a Rádio Televisão Portuguesa, RTP.

           A 23 de abril de 2015 irá decorrer a partir das 12 horas na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, em Braga, a 2ª fase do Concurso Nacional de Leitura(CNL) 2014/15.

              Do Agrupamento de Escolas de Gondifelos foram apuradas as seguintes alunas para participar neste evento:

  •   Maria João Barbosa, 8º1,
  •   Vera Oliveira, 9º1,
  •    Maria Meira,9º2


Felicidades e uma boa participação!




quinta-feira, 9 de abril de 2015

6º Semana da Leitura ....













De dois a seis de março
Celebrou-se a Semana da Leitura
Com muitas actividades
Em eventos de cultura

A Semana da Leitura foi bonita a valer
Envolveu a comunidade
E começou com “ A Escola a ler”


Subordinado ao tema
“Palavras do Mundo” inteiro
Prosseguimos o nosso lema
Com palavras portuguesas e do estrangeiro


                                               Todas as turmas visitaram
A nossa Feira do Livro
Acompanhados pelos professores
Adquiriram um novo amigo

Houve Jornadas das Línguas,
Encontro com escritores
Abertura à comunidade
E prémios aos vencedores

Com “Famalicão a Ler”
Em horários matinais
Leram os nossos alunos
Poemas na Rádio Mais

Os livros são histórias
Histórias são vida
Quanto mais livros leres
A tua cultura fica mais enriquecida

.  


Profª Rosa Dias, Profª Isabel Gouveia e Ana Sofia Silva, 9º2

O sal da terra ..documentário sobre a obra do fotógrafo Sebastião Salgado..










quarta-feira, 8 de abril de 2015

Texto da semana...Este Não-Futuro que a Gente Vive...

Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros.

Al Berto

Livro do mês de abril


«A alegria é sagrada, mas a tristeza merece muito respeito»       


   Matilde Rosa Araújo nasceu em 1921 em Benfica,Lisboa, na quinta dos seus avós. Licenciou- se em 1945 em Filologia Românica, pela Faculdade de Letras de Lisboa, com uma tese em que propôs a reportagem como género literário. Fez carreira no ensino durante quarenta e dois anos, tendo lecionado em diferentes graus de ensino, em escolas por todo o país. A par da experiência como professora começou a escrever para crianças, sendo Poemas Infantis e O Livro da Tila as suas primeiras obras . 
   A sua obra infantil, promovendo um diálogo profundo com as crianças, é de uma grande variedade de géneros (como poesia, novela, contos) e de contextos (em algumas obras retrata temas como a pobreza e o abandono). Foram-lhe atribuídos, entre outros, o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Críticos de Arte (São Paulo, 1991, por O Palhaço Verde), o Prémio para o Melhor Livro para a Infância publicado no biénio 1994- 1995 da Fundação Calouste Gulbenkian (1996, por Fadas Verdes) e o Prémio Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores (em 2004). Faleceu, a 6 de julho de 2010, na sua casa em Lisboa.
~








terça-feira, 7 de abril de 2015

O Novo Homem..momento de poesia 2...













O homem será feito 
em laboratório. 
Será tão perfeito como no antigório. 
Rirá como gente, 
beberá cerveja 
deliciadamente. 
Caçará narceja 
e bicho do mato. 
Jogará no bicho, 
tirará retrato 
com o maior capricho. 
Usará bermuda 
e gola roulée
Queimará arruda 
indo ao canjerê, 
e do não-objecto 
fará escultura. 
Será neoconcreto 
se houver censura. 
Ganhará dinheiro 
e muitos diplomas, 
fino cavalheiro 
em noventa idiomas. 
Chegará a Marte 
em seu cavalinho 
de ir a toda parte 
mesmo sem caminho. 
O homem será feito 
em laboratório 
muito mais perfeito 
do que no antigório. 
Dispensa-se amor, 
ternura ou desejo. 
Seja como for 
(até num bocejo) 
salta da retorta 
um senhor garoto. 
Vai abrindo a porta 
com riso maroto: 
«Nove meses, eu? 
Nem nove minutos.» 
Quem já concebeu 
melhores produtos? 
A dor não preside 
sua gestação. 
Seu nascer elide 
o sonho e a aflição. 
Nascerá bonito? 
Corpo bem talhado? 
Claro: não é mito, 
é planificado. 
Nele, tudo exacto, 
medido, bem posto: 
o justo formato, 
standard do rosto. 
Duzentos modelos, 
todos atraentes. 
(Escolher, ao vê-los, 
nossos descendentes.) 
Quer um sábio? Peça. 
Ministro? Encomende. 
Uma ficha impressa 
a todos atende. 
Perdão: acabou-se 
a época dos pais. 
Quem comia doce 
já não come mais. 
Não chame de filho 
este ser diverso 
que pisa o ladrilho 
de outro universo. 
Sua independência 
é total: sem marca 
de família, vence 
a lei do patriarca. 
Liberto da herança 
de sangue ou de afecto, 
desconhece a aliança 
de avô com seu neto. 
Pai: macromolécula; 
mãe: tubo de ensaio, 
e, per omnia secula
livre, papagaio, sem memória e sexo, 
feliz, por que não? 
pois rompeu o nexo 
da velha Criação, 
eis que o homem feito 
em laboratório 
sem qualquer defeito 
como no antigório, 
acabou com o Homem. 
       Bem feito. 


Carlos Drummond de Andrade