terça-feira, 2 de junho de 2026

EDUCAR COM CINEMA NO JARDIM DE INFÂNCIA

 

Jardim de Infância de Gondifelos

Jardim de Infância de Outiz


Após um breve interregno, o cinema voltou aos Jardins de Infância de Gondifelos e de Outiz, com a curta-metragem de animação da Pixar (2016) intitulado “Piper”.

 As crianças, depois de reconhecerem os elementos essenciais numa sala de cinema e no acesso a ela, nomeadamente a tela, o projetor, as colunas/som, as cadeiras numeradas e por fila, os espetadores e o bilhete de acesso, visualizaram atentamente o filme que acompanha um pequeno filhote de pássaro (pilrito-das-praias) que precisa de superar o seu medo das ondas do mar.

Após a visualização procedeu-se à exploração da história, das personagens, do espaço e dos sons, tendo as crianças identificado o espaço da história, as personagens e os sentimentos expressos, demonstrando que perceberam a mensagem da história.

Ao terminar a sessão, as crianças foram desafiadas a desenhar a parte do filme que mais gostaram.

A equipa da Biblioteca agradece a disponibilidade e ao acolhimento das Educadoras e Assistentes Operacionais, que facilitaram a implementação deste projeto de formação de público para o cinema.






Texto da semana: Dia mundial da criança 1 de Junho



Criança

Cabecinha boa de menino triste,
de menino triste que sofre sozinho,
que sozinho sofre, — e resiste,

Cabecinha boa de menino ausente,
que de sofrer tanto se fez pensativo,
e não sabe mais o que sente...

Cabecinha boa de menino mudo
que não teve nada, que não pediu nada,
pelo medo de perder tudo.

Cabecinha boa de menino santo
que do alto se inclina sobre a água do mundo
para mirar seu desencanto.

Para ver passar numa onda lenta e fria
a estrela perdida da felicidade
que soube que não possuiria.

Cecília Meireles, in 'Viagem'



Ode à Criança

A criança é criativa porque é crescimento e se cria a si própria. É como um rei, porque impõe ao mundo as suas ideias, os seus sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pré-elaborado, e constrói o seu próprio mundo de ideais. Tem uma sexualidade própria. Os adultos cometem um pecado bárbaro ao destruir a criatividade da criança pelo roubo do seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto, e orientando-a no sentido de finalidades que lhe são estranhas. A criança é sem finalidade, cria brincando e crescendo suavemente; se não for perturbada pela violência, não aceita nada que não possa verdadeiramente assimilar; todo o objeto em que toca vive, a criança é cosmos, mundo, vê as últimas coisas, o absoluto, ainda que não saiba dar-lhes expressão: mas mata-se a criança ensinando-a a a ter-se a finalidades e agrilhoando-a a uma rotina vulgar a que, hipocritamente, se chama realidade.

Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'



Música da semana: Nick Cave & The Bad Seeds - O Children (Live) 4K


 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

PALAVRA DA SEMANA

 

A palavra criança tem origem no latim. Ela deriva da junção do verbo creāre (que significa "criar" ou "fazer crescer") com o sufixo -ança (do latim -antia, que indica o resultado de uma ação). 
Historicamente, a palavra remete ao sentido de "aquilo que está sendo criado" ou "o que cresce". O verbo creāre partilha a mesma raiz indo-europeia (ḱer-) que deu origem ao verbo crescer
  • Formação: criar + -ança

Antes de começarmos, note como a palavra tem um sufixo muito curioso: -ança. Encontramo-lo em palavras que mostram um excesso, como «festança», mas também em palavras menos superlativas: «confiança», «esperança» (entre tantas outras).

Portanto, o que este sufixo faz é pegar num verbo e transformá-lo num nome. «Confiar» transforma-se em «confiança»; «esperar» transforma-se em «esperança» — e por aí fora.

Ao contrário doutros sufixos, o sufixo -ança parece ter perdido a força. Criou palavras durante séculos e, um belo dia, cansou-se. Hoje, é difícil usá-lo para criar novas palavras. «Amar» pode transformar-se em «amança»? Dificilmente. «Parar» pode ser «parança»? Na verdade, sim: «parança» está nos dicionários, tal como, entre outras mais raras, «falança». Mas palavras como «teclança» seriam difíceis de criar agora (mas nunca se sabe…).

Em contraste, há outros sufixos que continuam a trabalhar sem parança: se amanhã aparecesse um país chamado «Talaguistão», é bem provável que os seus habitantes fossem os talaguistaneses. O sufixo -ês está vivo e recomenda-se.

No caso da palavrinha que nos trouxe aqui, o sufixo -ança, num tempo em que ainda andava cheio de pujança, encontrou o verbo «criar», chegou-se a ele e nasceu uma bela «criança». Este «criar» veio — surpresa! — do latim, mais propriamente da forma verbal «creāre». O verbo latino já tinha vindo da antiga forma proto-indo-europeia «*er-», que significava «crescer» ou «fazer crescer» e que também está na origem do verbo português «crescer». O verbo «criar» também deu origem a «criatura», «criação», «cria», «criadouro»…

https://24noticias.sapo.pt/opiniao/artigos/qual-e-a-origem-da-palavra-crianca






LIVRO DO MÊS

 


segunda-feira, 25 de maio de 2026

Música da semana: Yusuf / Cat Stevens - Where Do The Children Play?


 

Texto da semana:Os Homens são como as Crianças.

 



A atitude que nós temos para com as crianças é a atitude que o sábio tem para com todos os homens, que são pueris mesmo após a idade madura e os cabelos brancos. O que terão progredido estes homens, cujos males da sua alma apenas se tornaram em maiores males, que em forma e grandeza corporais tanto diferem das crianças, mas que em tudo o resto não são menos ligeiros e inconstantes, correndo atrás dos desejos sem reflectirem, agitados e que quando se aquietam é por medo, não por engenho seu?
Diria que aquilo que distingue as crianças dos homens é que a avidez das crianças é por dados, nozes e pequenas moedas de ouro, enquanto que a dos homens é pelo ouro e pela prata das cidades; uns imaginam magistrados entre eles mesmos e imitam a toga, o facho e o tribunal, os outros jogam os mesmos jogos, mas a sério, no Campo de Marte, no Fórum e na Cúria; uns, amontoando areia à beira-mar, constroem simulacros de casas, os outros, como quem executa uma grande obra, trabalhando a pedra na construção de paredes e tectos, fazem aquilo que os devia abrigar um verdadeiro perigo. Por isso, entre crianças e homens-feitos o erro é igual, diferindo apenas o objecto e a importância.
Assim sendo, não é por acaso que o sábio recebe as ofensas dos homens como brincadeiras e, de vez em quando, os admoesta e castiga, não porque tenha sofrido a injúria, mas sim porque a cometeram e para que não a repitam. É também com a vergasta que domamos os animais, e não nos iramos com eles quando eles recusam ser montados, mas reprimimo-los, para que a dor vença a sua teimosia. Vês assim resolvida aquela objecção que nos fazem: se o sábio não sofre a injúria nem a ofensa, porque pune os que as cometeram? De facto, ele não se vinga, ele emenda-os.

Séneca, in 'Da Constância do Sábio'