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quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Autores portugueses - Vergílio Ferreira - Um Mundo de Vidas....Nós vivemos da nossa vida um fragmento tão breve...
Nós vivemos da nossa vida um fragmento tão breve. Não é da vida
geral - é da nossa. É em primeiro lugar a restrita porção do que em cada
elemento haveria para viver. Porque em cada um desses elementos há a
intensidade com o que poderíamos viver, a profundeza, as ramificações. Nós
vivemos à superfície de tudo na parte deslizante, a que é facilidade e fuga. O
resto prende-se irremediavelmente ao escuro do esquecimento e distracção. Mas
há sobretudo a zona incomensurável dos possíveis que não poderemos viver.
Porque em cada instante, a cada opção que fazemos, a cada opção que faz o
destino por nós, correspondem as inumeráveis opções que nada para nós poderá
fazer. Um golpe de sorte ou de azar, o acaso de um encontro, de um lance, de
uma falência ou benefício fazem-nos eliminar toda uma rede de caminhos para se
percorrer um só. Em cada momento há inúmeros possíveis, favoráveis ou
desfavoráveis, diante de nós. Mas é um só o que se escolheu ou nos calhou.
Assim durante a vida vão-nos ficando para trás mil soluções
que se abandonaram e não poderão jamais fazer parte da nossa vida. Regresso à
minha infância e entonteço com as milhentas possibilidades que se me puseram de
parte. Regresso à juventude, à idade adulta, ao simples dia de ontem e a
infinidade de soluções que não adoptei dava para um mundo de vidas. Foi uma só.
Nela realizei, num único percurso, aquilo que constituiu o todo de uma vida
humana. E todavia, nessa estreiteza de ser está o infinito de mim. Deus é a
simplicidade absoluta e tem o máximo de ser. Nós conhecemos em nós esse máximo
e é por isso que ao Deus o soubemos inventar.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Poema da semana....Tédio....Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal" ..
Tenho as recordações d'um velho milenário!
Um grande contador, um prodigioso armário,
Cheiinho, a abarrotar, de cartas memoriais,
Bilhetinhos de amor, recibos, madrigais,
Mais segredos não tem do que eu na mente abrigo.
Meu cer'bro faz lembrar descomunal jazigo;
Nem a vala comum encerra tanto morto!
Eu sou um cemitério estranho, sem conforto,
Onde vermes aos mil — remorsos doloridos,
Atacam de pref'rência os meus mortos queridos.
Eu sou um toucador, com rosas desbotadas,
Onde jazem no chão as modas despresadas,
E onde, sós, tristemente, os quadros de Boucher
Fuem o doce olor d'um frasco de Gellé.
Nada pode igualar os dias tormentosos
Em que, sob a pressão de invernos rigorosos,
O Tédio, fruto inf'liz da incuriosidade,
Alcança as proporções da Imortalidade.
— Desde hoje, não és mais, ó matéria vivente,
Do que granito envolto em terror inconsciente.
A emergir d'um Saarah movediço, brumoso!
Velha esfinge que dorme um sono misterioso,
Esquecida, ignorada, e cuja face fria
Só brilha quando o Sol dá a boa-noite ao dia!
Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
ONDA PINA - A POESIA em MOVIMENTO
ONDA PINA - A POESIA em MOVIMENTO NA BIBLIOTECA DO AEGONDIFELOS on PhotoPeach
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Texto da semana - As Pessoas Só Crescem ao Ritmo a que São Obrigadas...

Os jovens de agora parece que têm dificuldade em crescer. Não sei porquê.
Se calhar as pessoas só crescem ao ritmo a que são obrigadas. Um primo meu, com
dezoito anos, já tinha as insignías de auxiliar do xerife. Era casado e tinha
um filho. Tive um amigo de infância que, com a mesma idade, já tinha sido
ordenado sacerdote baptista. Era pastor de uma igrejinha rural, muito antiga.
Ao fim de uns três anos foi transferido para Lubbock e, quando disse às pessoas
que se ia embora, elas desataram todas a chorar, ali sentadas no banco da
igraja. Homens e mulheres, todos em lágrimas. Tinha celebrado casamento,
baptizados, funerais. Com vinte e um anos, talvez vinte e dois. Quando pregava
os seus sermões, a assistência era tanta que havia gente de pé no adro a ouvir.
Fiquei espantado. Na escola ele era sempre tão calado.
(...) A Loretta contou-me que ouviu falar na rádio de uma certa percentagem
de crianças deste país que está a ser criada pelos avós. Já não me lembro do
número. Era bastante alto, pareceu-me. Os pais não querem ter esse trabalho.
Conversámos sobre isso. Demos connosco a pensar que quando a próxima geração
crescer e também já não quiser criar os filhos, quem é que vai tomar essa
tarefa a seu cargo? Os pais deles vão ser os únicos avós disponíveis e nem os
próprios filhos quiseram criar. Não encontrámos resposta para isto.
Cormac McCarthy, in 'Este País Não É para Velhos'
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Ode à Criança....
A criança é criativa porque é crescimento e se
cria a si própria. É como um rei, porque impõe ao mundo as suas ideias, os seus
sentimentos e as suas fantasias. Ignora o mundo do acaso, pré-elaborado, e
constrói o seu próprio mundo de ideais. Tem uma sexualidade própria. Os adultos
cometem um pecado bárbaro ao destruir a criatividade da criança pelo roubo do
seu mundo, sufocando-a com um saber artificial e morto, e orientando-a no
sentido de finalidades que lhe são estranhas. A criança é sem finalidade, cria
brincando e crescendo suavemente; se não for perturbada pela violência, não
aceita nada que não possa verdadeiramente assimilar; todo o objecto em que toca
vive, a criança é cosmos, mundo, vê as últimas coisas, o absoluto, ainda que
não saiba dar-lhes expressão: mas mata-se a criança ensinando-a a ater-se a
finalidades e agrilhoando-a a uma rotina vulgar a que, hipocritamente, se chama
realidade.
Robert Musil, in 'O Homem sem Qualidades'Texto da semana...Aprender a Ler..de Gabriel García Marquez,..
Tive muita dificuldade em aprender a ler. Não
me parecia lógico que a letra «m» se chamasse «éme» e, no entanto, com a vogal
seguinte não se dissesse «éme» e sim «ma». Era-me impossível ler assim. Por
fim, quando cheguei ao Montessori, a professora não me ensinou os nomes mas sim
os sons das consoantes. Assim pude ler o primeiro livro que encontrei numa arca
poeirenta da arrecadação da casa. Estava descosido e incompleto, mas
absorveu-me de uma forma tão intensa que o namorado da Sara, ao passar, deixou
cair uma premonição aterradora: «Caramba!, este menino vai ser escritor».
Dito por ele, que vivia de escrever, causou-me uma grande impressão. Passaram
vários anos antes de saber que o livro era «As Mil e Uma Noites». O conto de
que mais gostei - um dos mais curtos e o mais simples que li — continuou a
parecer-me o melhor para o resto da minha vida, embora agora não esteja seguro
de que fosse lá que o li nem ninguém me tenha podido esclarecer. O conto é
este: um pescador prometeu a uma vizinha oferecer-lhe o primeiro peixe que
pescasse se ela lhe emprestasse um chumbo para a sua rede e, quando a mulher
abriu o peixe para o frigir, tinha dentro um diamante do tamanho de uma
amêndoa.
Gabriel García Marquez, in 'Viver para Contá-la'
sexta-feira, 7 de novembro de 2014
Poemas do escritor Manuel António Pina
O pássaro
da cabeça
Sou o
pássaro que canta
dentro da tua cabeça,
que canta na tua garganta,
que canta onde lhe apeteça.
Sou o
pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
(mesmo as que julgas que não).
Sou o
pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada.
E esta é
a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão
e ficas
de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.
A Ana
quer
A Ana
quer
nunca ter saído
da barriga da mãe.
Cá fora está-se bem,
mas na barriga também
era divertido.
O coração
ali à mão,
os pulmões ali ao pé,
ver como a mãe é
do lado que não se vê.
O que a
Ana mais quer ser
quando for grande e crescer
é ser outra vez pequena:
não ter nada que fazer
senão ser pequena e crescer
e de vez em quando nascer
e voltar a desnascer.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
Texto da semana...O tempo...é o progresso contínuo do passado que morde o futuro e vai inchando à medida que avança.

Não existe [...] matéria mais resistente nem mais
substancial (o tempo). Porque a nossa duração não é apenas um instante a seguir
ao outro; se fosse, nunca haveria mais nada além do presente – nenhum
prolongamento do passado na actualidade, nenhuma evolução, nenhuma duração
concreta. A duração é o progresso contínuo do passado que morde o futuro e vai
inchando à medida que avança. E, como o passado cresce sem parar, não há nenhum
limite à sua preservação. A memória [...] não é uma faculdade de arrumar recordações
numa gaveta, ou de inscrevê-las num registo [...] Na realidade, o passado
preserva-se a si mesmo, automaticamente. Provavelmente acompanha-nos na sua
totalidade a cada instante [...]
Henri Bergson,
segunda-feira, 3 de novembro de 2014
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