terça-feira, 9 de junho de 2026

Texto da semana: A Cantiga do Optimismo

 





Não embarquem na cantiga do otimismo. Sempre que possível, vejam as coisas pelo lado ruim. Desejem o melhor, mas não deixem nunca de esperar o pior. E saibam que dois terços das conquistas do Homem se fizeram, mais do que pelo otimismo dos seus autores, em resultado do pessimismo dos vizinhos daqueles. Os compêndios irão contra vós. Dir-vos-ão que são cínicos, escapistas, pobres cultores da ideia de supremacia do mal sobre o bem, tristes conformistas destinados ao imobilismo e mais nada. Não acreditem. Se há uma coisa capaz de mover montanhas, é ter ao lado um sacana a dizer «Não consegues, pá, dês as voltas que deres não consegues» - e, aliás, nós próprios concordarmos com ele. Em todo o caso, o mal exerce efetivamente supremacia sobre o bem. Vocês sabem que as crianças choram antes de rir - e que. muito antes de aprenderem o potencial sedutor de um sorriso, já conhecem as virtudes chantagísticas de uma boa gritaria.
Não pensem que o método é meu. Insinuou-o Voltaire, no seu Candide, à revelia dos otimistas taralhoucos que vieram antes e depois dele, como Leibniz ou Godwin. Gramsci tratou da exegese. O verdadeiro segredo? O verdadeiro método? «É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade», proclamou. Não é infalível, claro.

Joel Neto, in 'Banda Sonora para um Regresso a Casa'






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