Não embarquem na cantiga do otimismo. Sempre que possível, vejam as coisas pelo
lado ruim. Desejem o melhor, mas não deixem nunca de esperar o pior. E saibam
que dois terços das conquistas do Homem se fizeram, mais do que pelo otimismo
dos seus autores, em resultado do pessimismo dos vizinhos daqueles. Os
compêndios irão contra vós. Dir-vos-ão que são cínicos, escapistas, pobres
cultores da ideia de supremacia do mal sobre o bem, tristes conformistas destinados
ao imobilismo e mais nada. Não acreditem. Se há uma coisa capaz de mover
montanhas, é ter ao lado um sacana a dizer «Não consegues, pá, dês as voltas
que deres não consegues» - e, aliás, nós próprios concordarmos com ele. Em todo
o caso, o mal exerce efetivamente supremacia sobre o bem. Vocês sabem que as
crianças choram antes de rir - e que. muito antes de aprenderem o potencial
sedutor de um sorriso, já conhecem as virtudes chantagísticas de uma boa
gritaria.
Não pensem que o método é meu. Insinuou-o Voltaire, no seu Candide,
à revelia dos otimistas taralhoucos que vieram antes e depois dele, como
Leibniz ou Godwin. Gramsci tratou da exegese. O verdadeiro segredo? O
verdadeiro método? «É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do
modo como ele é. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade», proclamou.
Não é infalível, claro.
Joel Neto, in 'Banda Sonora para um Regresso a Casa'


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